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E se amar tivesse prazo? Livro de Vanessa Brunt propõe distopia sobre relações, legado e permanência

14 de Abril de 2026

Universo é apresentado em conto da escritora premiada e amplia a narrativa em seu Estilo Bruntiano

Em um cenário onde relações têm data marcada para acabar e o apego se tornou um risco social, a escritora Vanessa Brunt propõe uma provocação que ultrapassa o campo dos afetos e avança para uma reflexão mais ampla sobre comportamento, identidade e legado: o que, de fato, deixamos nas pessoas por onde passamos?

Esse é o ponto de partida de Ir Também é Ficar, conto distópico que integra a obra homônima da autora e que vem ganhando novas leituras ao apresentar uma sociedade em que vínculos são interrompidos de forma sistemática, sob regras impostas por um governo totalitário. Ambientada em 2040, a narrativa constrói um mundo onde não existem mais casamentos, famílias, sobrenomes ou relações duradouras, e onde permanecer deixou de ser uma possibilidade.

Vanessa Brunt
Foto: Divulgação

Nesse contexto, pessoas são obrigadas a mudar de casa todos os anos, deixando para trás não apenas espaços físicos, mas qualquer tentativa de continuidade emocional. A protagonista, Felícia, nasce dentro dessa lógica, mas passa a questioná-la à medida que vivencia relações que desafiam o que foi estabelecido como normal.

Embora a premissa dialogue diretamente com a ideia de desapego, a construção da obra avança para um território mais profundo. A narrativa se organiza a partir de uma metáfora central: todo mundo é uma casa. A partir dela, o conto desloca o debate das relações para o impacto que elas geram, propondo que cada pessoa carrega marcas de quem passou e, ao mesmo tempo, deixa rastros por onde esteve.

“Você prefere ser marca ou mancha? Esse cuidado que temos quando somos visita na casa de alguém, de não colocar o pé sujo no sofá ou largar uma toalha jogada no chão, deveria existir sempre que nos relacionamos. Afinal, uma relação é entrar na casa que é o outro”, destrincha a autora.

Essa perspectiva transforma o conceito de ir embora em algo menos simples do que parece. Ao sair de uma relação, não há ruptura total. Permanecem memórias, influências e efeitos que continuam reverberando. A obra passa a discutir não apenas vínculos, mas responsabilidade emocional, construção de identidade e as consequências das escolhas individuais ao longo do tempo.

Trechos do livro ajudam a traduzir essa construção ao tratar intimidade não como intensidade, mas como conforto. É o caso da frase “intimidade é sobre não sentir agonias”. Em outra camada, a narrativa aponta para decisões que moldam trajetórias, como em “o raro só é raro para quem aceita o pouco como muito”.

Ao estruturar esse universo, a distopia deixa de ser apenas uma projeção futurista e passa a funcionar como um espelho do presente. A obra sugere que a sociedade contemporânea pode estar transitando entre extremos, saindo de relações marcadas por dependência emocional para dinâmicas cada vez mais superficiais, onde o desapego é frequentemente interpretado como evolução, mesmo quando implica ausência de responsabilidade sobre o outro.

Nesse sentido, Ir Também é Ficar desloca o debate do ficar ou ir para uma pergunta mais ampla: o que significa, de fato, permanecer?

A trajetória de Vanessa Brunt contribui para a consolidação dessa abordagem. Autora de nove livros, com obras que transitam entre contos, crônicas e poesias, é conhecida por desenvolver uma linguagem própria, frequentemente associada ao chamado Estilo Bruntiano, caracterizado por construções que ressignificam conceitos e propõem novas leituras sobre temas cotidianos. Sua produção é estudada em universidades brasileiras, com análises voltadas para a forma como suas narrativas reorganizam sentidos, termos sociais e reflexões a partir de estruturas disruptivas.

No conto, disponível na Amazon em versão mais extensa e também em livro físico, é possível perceber recursos de linguagem característicos do estilo da autora, como palavras fragmentadas para gerar novos sentidos. Um exemplo aparece no trecho: “às vezes a verdadeira esperança só pode nascer nas part-idas”.

Além da literatura, Brunt atua como jornalista, colunista e empresária, conectando narrativa e comunicação em diferentes formatos. Essa combinação se reflete em suas obras, que não se limitam à construção estética, mas se posicionam como ferramentas de leitura social.

Em Ir Também é Ficar, essa proposta se manifesta na forma como o universo ficcional se estrutura. Relações com tempo determinado, controle social sobre afetos, punições para quem insiste em permanecer e uma cultura que desencoraja vínculos duradouros fazem parte da lógica apresentada. Ainda assim, é justamente dentro dessas limitações que surgem as maiores tensões da narrativa, quando os personagens começam a perceber que evitar o apego não elimina o impacto das relações.

A obra funciona como uma metáfora para uma investigação sobre comportamento humano e apresenta circulação crescente entre leitores, além de forte presença nas redes sociais, impulsionada pela combinação entre narrativa distópica, frases de impacto e construção simbólica.

No fim, a pergunta central deixa de ser sobre um futuro em que tudo acaba e passa a ser sobre o presente, em que muitas vezes nada chega a se consolidar. O que estamos construindo e deixando para as próximas relações? Talvez o livro não responda diretamente, porque o trabalho dele é levantar a verdadeira interrogação.

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