A sensação de abrir o armário cheio de roupas e, ainda assim, sentir que não há nada para vestir é mais comum do que parece. Muitas vezes, mesmo diante de diversas opções, nenhuma combinação parece funcionar ou transmitir a imagem desejada. As roupas acabam sendo usadas sempre da mesma maneira: a mesma blusa com a mesma calça e os mesmos acessórios. Se essa escolha já representa um desafio para quem enxerga, ela se torna ainda mais complexa para pessoas cegas ou com baixa visão, principalmente quando desejam montar seus looks com autonomia.
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| Foto: Magnific |
Contar com a opinião de alguém de confiança na hora de escolher uma roupa pode ser útil, mas a possibilidade de tomar essas decisões de forma independente deveria estar ao alcance de todos, desde a experiência da compra e identificação das peças até a criação de combinações no dia a dia. Atentos à essa realidade, alguns designers de moda ao redor do mundo entenderam a necessidade de incorporar elementos específicos ao desenvolverem artigos de vestuário.
A relação entre moda e Braille mostra como diferentes formas de comunicação podem se complementar para promover acessibilidade. Designers e empresas têm utilizado essa integração para desenvolver produtos que favorecem a autonomia de pessoas cegas ou com baixa visão. Além de contribuir para a organização do guarda-roupa, essas soluções permitem que vestir-se seja uma experiência mais livre e personalizada, fortalecendo a autoestima e a expressão individual. Um exemplo é o trabalho da designer Rugilė Gumuliauskaitė, que utiliza a impressão gráfica tiflo para criar esboços táteis de roupas, permitindo que clientes com deficiência visual tenham uma primeira percepção do formato de cada peça.
Recursos sensoriais também vêm sendo explorados. A marca Sónar, criada por María Sol Ungar, desenvolve roupas pensadas para atender às necessidades do cotidiano de pessoas com deficiência visual. Entre as soluções adotadas estão bolsos específicos para acomodar bengalas, etiquetas em Braille e um sistema de identificação das cores por meio de bordados feitos com lantejoulas, miçangas e outros materiais táteis. Nada em seus designs é puramente estético, tudo é intencionalmente feito para a praticidade diária de quem usa.
Outra iniciativa de destaque é a Two Blind Brothers, que além do desenvolvimento de produtos acessíveis, ganhou destaque com a campanha Go Blind, na qual os consumidores adquirem uma caixa surpresa sem saber quais produtos receberão. A proposta é proporcionar uma experiência semelhante à vivenciada por pessoas com deficiência visual durante o processo de compra, convidando o público a colocar sua confiança em outras pessoas e na gentileza alheia, em vez de depender exclusivamente da visão para fazer suas escolhas.
A renda obtida com a venda das caixas é destinada ao financiamento de pesquisas voltadas ao combate da cegueira. Dessa forma, a empresa amplia seu impacto para além da produção de roupas acessíveis, utilizando a moda como ferramenta de conscientização e incentivo à empatia.
Em entrevista concedida ao Sempre Família, a designer de moda Maristela Szarnobay apresenta outra abordagem para facilitar a identificação das roupas. Ela associa fragrâncias às cores dos tecidos, explorando a memória olfativa como recurso de reconhecimento, como por exemplo cheiro de baunilha para peças beges e amarelas. A designer também organiza suas coleções em cápsulas, reunindo roupas que combinam entre si e simplificam a montagem de diferentes looks. Segundo ela, essa estratégia considera que muitas pessoas que perderam a visão ainda estão em processo de aprendizagem do Braille, tornando a escolha do vestuário mais prática.
Embora essas iniciativas ainda representem uma parcela pequena da indústria da moda, elas demonstram que inclusão e design podem caminhar juntos. Recursos como Braille, elementos táteis e até estímulos olfativos mostram que, quando o vestuário passa a considerar diferentes formas de perceber o mundo, ele deixa de atender apenas a um público específico e se torna mais inclusivo para todos.
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