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Juros altos e materiais mais caros mudam a estratégia de quem pretende construir ou reformar

14 de Agosto de 2026
Créditos: Magnific

Construir uma casa ou realizar uma grande reforma exige cada vez mais planejamento financeiro. A combinação de juros elevados, oscilações nos preços dos materiais e aumento do custo da mão de obra tornou mais complexa a tarefa de manter uma obra dentro do orçamento. Nesse cenário, decisões tomadas antes e durante a execução podem ser determinantes para evitar desperdícios, atrasos e gastos inesperados.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reforçam o cenário de pressão sobre os custos. O custo nacional da construção por metro quadrado passou de R$ 1.976,37 em junho para R$ 1.985,10 em julho. Desse total, R$ 1.120,13 correspondem aos materiais e R$ 864,97 à mão de obra. No acumulado do ano, os materiais registraram alta de 3,88%, enquanto a mão de obra avançou 6,37%. Em 12 meses, os aumentos foram de 5,81% e 9,56%, respectivamente.

Para o arquiteto e CEO da CMF Arquitetura & Design, Cássio Ferraz, o cenário exige que o proprietário tenha uma visão mais ampla dos custos antes de iniciar a obra. “Quando o crédito fica mais caro, o proprietário precisa rever o tamanho, o padrão construtivo e até o cronograma da obra para que o projeto continue compatível com sua capacidade financeira”, afirma.

O custo do dinheiro também interfere no planejamento de quem utiliza recursos próprios. Isso acontece porque o capital destinado à construção deixa de ser utilizado em outras alternativas financeiras. Quanto maior o tempo de execução, maior pode ser esse custo de oportunidade. Por isso, orçamento e cronograma precisam ser acompanhados e atualizados durante toda a obra.

Os materiais e a mão de obra também representam pontos importantes de atenção. Os preços dos insumos não se comportam de maneira uniforme e determinadas categorias podem sofrer oscilações ao longo dos meses. Ao mesmo tempo, o avanço da mão de obra acima dos materiais, registrado pelo IBGE, mostra a importância de considerar não apenas o preço dos produtos, mas também o custo e a disponibilidade de profissionais qualificados.

A tentativa de economizar na contratação da equipe também pode gerar despesas adicionais. “Uma escolha aparentemente econômica pode resultar em retrabalho, desperdício de materiais e atrasos. No final, a economia inicial pode acabar sendo anulada por esses custos adicionais”, explica Ferraz.

Nesse contexto, o projeto executivo ganha importância. Um planejamento detalhado permite identificar previamente possíveis incompatibilidades entre arquitetura, estrutura, instalações elétricas, hidráulicas e climatização. “Quanto mais problemas conseguimos identificar antes de chegar ao canteiro, menor é o risco de desperdício, retrabalho e alteração de cronograma. Em um cenário de custos pressionados, projetar bem também é uma forma de controlar financeiramente a obra”, destaca o arquiteto.

Outra possibilidade para quem precisa controlar o desembolso é construir por etapas. Ambientes considerados essenciais podem ser priorizados, enquanto áreas como espaços de lazer, edículas ou um segundo pavimento podem ser planejados para uma fase posterior. A estratégia, porém, precisa ser considerada desde o início. “É possível distribuir o investimento ao longo do tempo sem precisar comprometer todo o orçamento de uma só vez, mas a futura ampliação precisa estar prevista no projeto para evitar adaptações mais caras posteriormente”, afirma Ferraz.

A escolha dos materiais também pode ser feita de maneira mais estratégica por meio da chamada engenharia de valor. A proposta é avaliar diferentes soluções considerando preço, desempenho, durabilidade, estética e manutenção. “Economizar não significa simplesmente escolher o material mais barato. É preciso comparar as alternativas e entender onde existe espaço para redução de custos sem comprometer segurança, conforto, qualidade ou durabilidade”, diz.

A gestão das compras é outro fator que pode influenciar diretamente o orçamento. Comprar todos os materiais antecipadamente pode comprometer o fluxo de caixa e criar dificuldades de armazenamento. Por outro lado, deixar as aquisições para a última hora pode resultar em preços maiores ou atrasos nas entregas.

“O ideal é que as compras acompanhem o cronograma e as necessidades de cada etapa. Materiais com prazo de entrega mais longo ou sujeitos a oscilações de preço podem justificar uma aquisição antecipada, enquanto outros podem ser negociados em lotes conforme o avanço da obra”, explica Ferraz.

A forma de contratação da equipe também deve ser analisada como uma decisão financeira. Na empreitada global, o construtor assume a responsabilidade pela execução por um preço previamente estabelecido, o que pode oferecer maior previsibilidade ao proprietário. Já na administração de obra, o cliente assume diretamente os custos de materiais e mão de obra e paga pela gestão.

“Não existe um modelo universalmente melhor. A empreitada global oferece maior previsibilidade, enquanto a administração pode proporcionar mais flexibilidade e transparência nas compras. A escolha precisa considerar o perfil financeiro do cliente, o quanto ele pretende participar da obra e o nível de risco que está disposto a assumir”, afirma.

Mesmo com planejamento, uma obra pode enfrentar problemas inesperados, como alterações técnicas, dificuldades no solo, atrasos de fornecedores ou reajustes de preços. Por isso, manter uma reserva financeira é uma das principais recomendações para evitar que um imprevisto paralise a execução.

“Uma obra sempre pode apresentar situações que não estavam previstas inicialmente. Dependendo da complexidade do projeto e do nível de incerteza, trabalhar com uma reserva de contingência entre 15% e 20% pode ser uma estratégia importante para absorver imprevistos sem comprometer a continuidade da execução”, orienta Ferraz.

Com a mão de obra acumulando alta superior à dos materiais no ano e também em 12 meses, o planejamento financeiro passa a ter um papel ainda mais relevante para quem pretende iniciar uma construção ou reforma. Para Ferraz, juros elevados e custos maiores não necessariamente impedem a realização de uma obra, mas exigem uma mudança na forma de planejá-la.

“Economizar não significa necessariamente escolher o produto mais barato. Significa reduzir desperdícios, antecipar problemas, negociar melhor e tomar decisões antes que elas se transformem em custos”, conclui.

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